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quinta-feira, 10 de junho de 2010

Carlos Conrado, uma pincelada em sua biografia por Marcelo Farias Lasena




Carlos Conrado

(A partir de entrevistas com Áurea Albano e o próprio Carlos Conrado.)


Foi em Ourolândia – Bahia ( em sua época Ouro Branco - povoado de Jacobina) que, após os galos tecerem a manhã do dia 02 de Abril de 1986, José Carlos Conrado da Silva saiu do enegrecido ventre de sua mãe Marinalva Catarina da Silva para ser entregue aos braços da luz acolhedora. Essa luz que o acolheu foi a mesma que o feriu. Aos 2 anos de idade sentiu na pele a dor do abandono. A sua mãe que antes era casada com o Sr. Erasmo Conrado da Silva, resolveu sair de casa numa noite de chuva e trovoadas em busca de novas terras com o seu novo homem. O pai de Carlos que, do berço da pobreza era filho, teve que dar um rumo diferente a cada criança. O menino mais velho teve a sorte de viver com ele. Já as outras crianças... Foram divididas em diferentes partes do sertão baiano. Nessa distribuição, dois ficaram na cidade do Morro do Chapéu. Já o Carlos Conrado... um menino de joelhos face a face e lingua presa, certo dia o velho decide dar um rumo diferente para este, e com o sonho de que o moleque possa ser (alguém), ele o leva para uma cidade um pouco mais evoluída dentre aquela região. Ao sair de casa com um bocapiu (sacola de feira feita com fibra de coqueiro) no ombro, dentro deste algumas roupinhas, poucas balinhas e um pacote de macarrão, ele procura desesperadamente, como quem quer livrar-se de um peso, alguém que se sensibilize com a situação do garoto. Peregrinando pelas ruas de Jacobina, ele vai passando de porta em porta fazendo sempre a mesma pergunta.

- Com licença, meu senhor e minha senhora, por acaso alguém poderia criar esse menino?

Nessas andanças pelas ruas, apenas uma senhora de coração puro e nobre ficou

sensibilizada com a situação de Carlos. Como todo começo pode ser variado, ora pode ser calmo e ora pode ser turbulento, o seu começo nessa nova família não foi nem um tanto positivo.

Nosso poeta foi levado por essa senhora até o seu novo lar. Era um apartamento no centro da cidade. Naquele dia toda a família estava reunida para o almoço. Não era sempre assim, mas aquele era um dia muito especial. Era Dia dos Pais. Quando pôs o seu pequenino pé para dentro do apartamento, bocas ficaram entreabertas, olhos arregalados e algumas pessoas paralisadas. Diante daquele espírito de surpresa e espanto, o menino que mal caminhava, mal entendia o que estava acontecendo. Sujo e mal vestido, despertou em algumas pessoas o preconceito. Mesmo assim, a sua nova mãe não se intimidou, encarou a todos com muita coragem.

Com seis anos foi à escola, inda trocando as pernas, (nesta mesma fase fez cirurgia nos joelhos e passou um bom tempo usando botas). Fez também a cirurgia na lingua e algumas sessões com um fonoaudiólogo para aprender a falar corretamente. Estudou num colégio mantido por uma paróquia do município. Foi convidado para ir a Holanda e iniciar num Seminário. Teve tudo para ser um sacerdote leal ao catolicismo. Mas aos doze anos, após sair da escola, ele vai à procura de alegria nas ruas. Diante delas, descobre um vasto mundo de novidades. Entrou no mundo das drogas, passando pouco tempo nessa fase. Perdeu um dos seus melhores amigos nessas buscas pelo êxtase da mente através de entorpecentes. Sofrendo, decidiu isolar-se por uns tempos, procurou a cura de sua dor através do silêncio. Foi a partir dessa fase que surgiu o seu dom pela arte de desenhar, pintar e escrever. Com um comportamento autista, passava horas na frente da TV fotografando tudo aquilo que era do seu real interesse. Aos 13 anos, participou pela primeira vez de um concurso de poesias, obtendo, por mérito, o 1º lugar. Aos 14, mudou-se para Aracaju-SE. Estudou a maior parte do seu ginásio no Colégio de 1º e 2º Graus Dom Luciano José Cabral Duarte. Desenvolvendo vários projetos na parte política e artística. Aos 16, participou do XIII Salão dos Novos, Galeria Álvaro Santos – Aracaju - SE. Nesse mesmo ano, deixou-se enfraquecer aos domínios da depressão que o levaram a tentar suicídio pela primeira vez, e mergulhou também no mundo da escuridão -sua fase negra, que o levou a adorar deuses das trevas, e a viajar na

melodia do equívoco. Ao perceber o grande atraso que dera em sua vida, ele decide buscar a libertação. Iniciou-se nos estudos de novas religiões, que deram a ele uma nova visão sobre a deidade suprema. Desligou-se do Cristianismo - em especial do Catolicismo, e mergulhou de coração no paganismo. Passou pelo Candomblé, Umbanda, colheu frutos no Budismo. Mais tarde, exercitando e adorando somente a magia branca, aproximou-se dos deuses do panteão céltico, Danna e Kernunnos se transformaram em seus guias espirituais.

Coordenou junto a outras mentes brilhantes, grandes movimentos pagãos no Estado: os encontros pagãos do PNT (Pega-no-Tranco), a criação do Coven Belo Caminho, alguns grupos de estudos e também Grupos Virtuais de discussão. Ainda no correr do ano, ampliou seus dons para as artes cênicas. Estudou por 3 anos na Escola Municipal de Artes da Funcaju – Fundação de Cultura e Arte. Estreou o seu primeiro espetáculo, Um Dia Daqueles, no Teatro Atheneu em Aracaju. Atuou no espetáculo O Cordeiro da Lã Dourada, também pela Funcaju. Aos 17, entrou para o Grupo Imagem. Ajudou no cenário do Espetáculo O Romance do Sol com a Lua, atuou na Peça Busca e trabalhou como fotógrafo oficial do grupo. No Grupo Vitral, foi coautor do texto O Mundo em Busca, o qual, também encenou. Aos 18, ingressou na Arcádia Literária Estudantil, ocupando a cadeira de nº35 cujo patrono é o dramaturgo Dias Gomes. Aos 19, voltou a aceitar Cristo através da Doutrina Espírita Kardecista, ingressou na ASAP (Associação Sergipana de Artistas Plásticos) ficando no cargo de Diretor de Comunicação. Na mesma época, o seu poema “Deus e a América” foi agraciado pelo 3º lugar no Concurso Interno de Poesias da Arcádia. Participou de várias coletivas de Artes Plásticas em Aracaju: Festa dos Arteiros, Coletiva de Esculturas do CULTART (Centro de Cultura e Arte), Coletiva da ASAP-CULTART e Tribus Visuais 2005 - Galeria Jenner Augusto- Sociedade Semear. Aos 20, foi um dos Fundadores da Casa do Poeta Brasileiro em Aracaju exercendo o cargo de Diretor de Eventos. Participou de outras marcantes exposições como a Mostra Sem Fronteiras- Intercambio Bahia e Sergipe - Museu de Arte Contemporânea de Feira de Santana. Aos 21, sua idade atual, ingressou no CPL - Clube de Poetas do Litoral - Baixada Santista-SP.


Falar de Carlos foi um dos meus grandes desafios. Espero que eu não o tenha magoado expondo um pouco de sua trajetória. Agradeço ao espaço cedido e digo: “Amigo, você é um presente para a cultura brasileira”.

Marcelo Farias Lasena. 20/04/2007

Critico Literário e Ensaísta.
in: Poesia Condenada - Carlos Conrado

3 comentários:

  1. Oi Conradíssimo, é por isto que lhe chamo por este nome. Honra-me a sua história de vida, a força de vontade, a conquista por meio das adversidades. Isso prova que os desafios não são empecilhos para quem quer vencer na vida, e vencer na vida não tem de estar necessariamente ligado ao bem material. Mais do que isso, a satisfação pessoal é a nossa melhor recompensa. Parabéns amigopoeta.

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  2. Li aqui tua estória de vida, concomitante passava um filme em preto e branco amarelado um tanto cordelista na minha cabeça... Fantástica tua estória, hermano, muito emocionante, corajosa, brilhante. Me chamou muito a atenção sobre a tua espiritualidade também.És um guerreiro nato!
    E parabéns ao Marcelo por descrever brilhantemente a saga do menino...poeta...homem...louco...Conrado! como disse a Luciana: CONRADÍSSIMO!!!

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  3. Carlos cada dia tenho mais a certeza de que é especial.

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