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quinta-feira, 17 de maio de 2012

Busca

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O que se faz nesta vida paga-se na outra. Assim dizia o meu avô aconselhando-me a não cometer nenhum equivoco de natureza grave. Sinceramente eu nunca engoli este papo de vida pós-morte. O que eu acreditava mesmo era no poder da ciência. Vultos, vozes do além, encarnações, tudo isto não se passava de um mero surto psicótico. Tudo tinha explicação, mas agora minha concepção é outra!...
Lembro-me daqueles olhos mal dormidos, daquele corpo dopado pela depressão. Alan era um jovem alegre e bem equilibrado, por isto minhas dúvidas sobre esta incessante busca de querer o submundo. Este garoto de cabelos crespos e altura mediana, sempre procurava os meus ouvidos para os seus desabafos. Eu como sempre os cedia. Era duro aguentar o peso daquelas palavras, eram palavras temperadas com dor, era a dor de mais um excluído da sociedade. Nascer negro e pobre não pode ser considerado um pecado. Para o Alan não, mas para à sua família, era uma verdadeira ovelha negra num rebanho de brancas. Entristeceu-me ouvi-lo dizer que a vida é algo podre, alimento de tolos. No instante em que isto aconteceu, percebi então que, àquela bomba que fora acessa aos poucos estava prestes a explodir. Pergunto-me até hoje se não havia um meio de resolver este problema antes da tragédia. A culpa foi toda minha. Se eu tivesse feito algo e, não pensasse que era apenas mais um jovem numa fase passageira, tudo isso seria diferente. Poderíamos estar rindo juntos desta fase negra, poderíamos...
Eram 15h do dia 4 de maio do ano de 1999. Fui fazer uma visita ao meu amigo, chegando lá, uma forte briga dele com os pais fez o chão estremecer. Tentei dar meia volta e ir embora, mas o cara estava precisando de minha ajuda. Então fiquei e ofereci os meus conselhos. Às 18h, fui para a minha casa deixando-o livre para qualquer ação... Ele estava pronto para o suicídio.
Contou-me a sua mãe que, ele queimou todos os documentos, rasgou todas as fotografias e, vestiu-se de negro e foi embora para nunca mais voltar. Havia um lugar que adorávamos ir para refletirmos sobre as nossas vidas e, às vezes, para não pagarmos motéis levávamos as garotas que encontrávamos nas noitadas. Este lugar era um farol que por descuido estava entrando em ruínas. Deixamos todo o espaço ao nosso gosto, bem rústico. Fizemos algumas mudanças para ele se transformar em nosso quartel general. Foi lá que o Alan respirou pela ultima vez...
Angustiado com a lua do céu buscou a lua do mar, não era um ser de asas, mas voou alto, buscou o mundo do descanso eterno.
Este não era mais um daqueles dias somente de perdas. Enquanto o seu espírito se descarnava. Uma nova vida fazia contato com a luz. A luz que às vezes cega, sangra e ao mesmo tempo acolhe. Uma luz traiçoeira e ao mesmo tempo a melhor companheira. Era um bebe lindo, pardo, olhos castanhos, maravilhoso. Assim disse a mãe ao me beijar feliz os lábios. –Alan, seu nome será Alan! Assim insisti em recordar do maior irmão que tive em vida.
Por: Carlos Conrado

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