Raízes



Pisadas nas verdes folhas da única árvore de Ark, o som acusava a presença de um corpo leve que se aproximava.

- Quem vem lá?

A voz que brotava da terra gritou assustada, pois a sua solidão estava sendo invadida. Era apenas um garoto, sem muitos atributos, um pouco atlético, pois era desses que do trabalho árduo nunca fora dispensado. Filho renegado do seu vilarejo, perambulava sem destino, acompanhado por sua espada que tilintava ao tocar nas pedras.

Por que uma árvore resistia viva e frondosa num ambiente seco e hostil, no qual já fora uma bela floresta?

Em passos tímidos ele avançava, cada vez mais próximo das raízes protuberantes. A curiosidade regia o giro de 360° feito pela sua cabeça, forçando o seu olhar a ver além.
Ouvindo um ruminar melancólico, fora saber do que se tratara.

Parado e desconfiado, pusera a espada na bainha e com as mãos apalpando a terra, gritou:

- Tens alguém aí em baixo?

Estalos anunciavam o despertar de alguns galhos ainda adormecidos. Um sussurro progressivo tornou-se numa voz mansa que corria de baixo para cima, tocou-o em matéria enérgica os pés e os ouvidos.

- Ora, não grites! Senta-te, meu jovem, estava a tua espera. Ouças, preciso contar-te como vim parar aqui, pois talvez possa de alguma forma resgatar a alegria que me fora tomada, se assim o teu coração sentir devido a essa cortesia. Não sei quão velho és tu, mas observando o teu rosto, que ainda não grifou as marcas do tempo e nem tão pouco o adeus da gravidade, percebo, meus olhos tais quais os teus, sedentos por conhecimento e, acima de tudo, pelo real sentido da vida humana.

- Como sei com quem estou falando? Não estou vendo o teu rosto. Por que estás escondido? Como consegues emitir sons deste solo? Isso é um truque ou algum tipo de magia?

- Não te preocupes, logo saberás quem sou. Tudo começou quando caí ao regaço de uma bela dama, filha do Conde Sandler, este um exímio esgrimista que intimidou o meu amor a buscar distância. Ai, aquela moça...! Tinha os lábios de pimenta e mel; tinha os olhos tais quais jabuticabas. Em meus devaneios, tento entender o seu arreio por mim. Eu, um ser que a fortuna nunca fora-me companheira, descanso hoje neste solo para que os tiranos não me devolvam à boca do vulcão Tiwin.

O garoto, cujo nome ainda não fora revelado, interrompeu-o:

- Sei bem a dor de ser um plebeu miserável.

- Acredites, rapaz, qualquer castigo é melhor do que aquele. Ousei tomar posse do coração de uma mulher prometida, eis aqui o meu dote.

- Quem fez isto contigo?

- Quem?! Isto não importa.  A maldade é uma só, apenas muda de endereço.

    Fui lançado ao fogo e, com a carne carcomida, amarraram-me os pés. Montados em seus corcéis, arrastaram-me sem piedade, tal qual um prêmio de uma bela caçada. Em minhas costas já era possível ver o embranquecido dos meus ossos. Ardiam...! Até quando a brisa soprava, eu sofria. Chorei dias e noites; clamei ao firmamento; evoquei deuses; Deus; até a minha sombra, eu pedi socorro. Quando minhas energias se esgotaram, o solo fora quem me abraçou. Esta terra, hoje, fornece-me alívio, mesmo sem o direito de ir e vir. Aqui, ainda me sinto seguro, acolhido.

    Tudo começou quando estava pastoreando minhas três ovelhas. Avistei há 300 metros três lordes que agrediam uma pobre e indefesa criança vestida por farrapos. Achei aquilo deveras absurdo, por isto, fui intervir na situação sem me importar com as consequências. Suas vestes bem acolchoadas e suas posturas evidenciavam uma educação impecável, e isso era um prato cheio para alimentar a soberba daqueles elegantes, contudo, dissimulados e perversos senhores.

- Mas tu havias dito que fora pelo amor roubado, isto também fora o motivo de vires parar aqui?

Sim! Fora um dia daqueles, bem me lembro! Perdoas-me por não ter sido muito claro.

Estou aqui há 200 anos e confesso não me importa saber o teu nome, pois são tantos os que me visitam que já nem me lembro como se chamam. Vi tuas gerações passarem por mim como o leme de um barco invadindo uma tempestade.

- Como assim 200 anos? Como isto é possível? Estás a zombar da minha sanidade?

  - Vês os meus frutos? Diariamente alguns cavaleiros vêm até aqui para roubar-me as maçãs. Que me importa o peso delas? Se eles não me roubam, o vento logo me furta ou os pássaros logo me trapaceiam.

- Não gostas de compartilhar teus frutos? Ao acaso estou a falar com uma árvore?

- Sim, bravo! Vejo que és um garoto muito inteligente!

- Devo estar é louco, doente, isto sim!

- E se os homens soubessem que os frutos da árvore que comem são, em verdade, os meus excrementos, ainda os chamariam de frutos? Meu jovem, quando o sentido que damos às coisas é deslocado, travamos a nossa mente e começamos a viver no horror de não termos para onde ir e as ideias agradáveis se afastam de nós bruscamente. Assim, eu te pergunto: poderás abdicar de uma vida cheia de ilusões?

Pobre rapaz, o que eu te disseste fora apenas um “E se”, e tu, sem hesitar, abraçaste como verdade. O teu corpo te acusa. O teu corpo fala. Estas pasmo, repugnado, sentes traído pelos teus próprios extintos, para não mencionar que já se considera um desvairado. Mas me respondas, tu acreditas que o que consegues ver, basta para conceituar de realidade?

O real, meu jovem, brinca conosco tal qual uma criança convicta em suas mentiras.

- Retiras de  mim o adjetivo “inteligente”, pois não entendo nada do que me disseste agora.

Vás, tomas-te o fruto! Tens estômago para desmanchar a imagem que criei em tua mente?

- Não conseguirei comer! Isso é nojento!

- O que mais te agrada saborear?

- Massas produzidas no Condado de Chester.

- Então  feches os teus olhos… Com a mente cries um muro, por detrás deste muro está a massa que tanto anseias por comer, aquela que com apenas o olhar desperta em ti desejo. Para alcançar o tão saboroso prato, precisarás vencer alguns obstáculos, pular o muro e, somente assim, quando estiveres frente ao que tanto desejas, sentirás um vitorioso diante do teu maior prêmio. Vai, degustes cada garfada, na qual  te levarás as nuvens. Vejo que tu agora saboreias no auge do teu paladar. Ponhas o fruto podre num baú, tranque-o e lances as chaves fora.

- Estou sentindo; estou comendo; quanto prazer, sinto-me deveras satisfeito, obrigado, obrigado cem vezes!

- Agora, abras os olhos, miras o olhar para as tuas mãos, pois ainda seguras o fruto do qual falei anteriormente, e fora ele, aquilo que comeste com tanto prazer.

- Maldito! Por que me enganaste?

- Estou apenas te mostrando a diferença entre o real e a ilusão.

 (Observando que o jovem ficou embevecido, aproveitou a voz para continuar as suas investidas).

- Novamente, apagues a luz dos teus olhos! Sentes a escuridão? Suportarias viver num mundo sem cores e sem luz? Esta, meu caro, é a realidade de muitos! A ilusão é a condição da qual nos adaptamos, mas o real, é terrivelmente um deserto sem fim.



Carlos Conrado in OS SEGREDOS DA MAÇÃ E OUTROS CONTOS

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