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Assassinou o próprio nome e foi ao cinema




Assassinou o próprio nome e foi ao teatro

Não pretendo aqui mimetizar o infame Assassino do Zodíaco, mas traçarei paralelos inevitáveis entre ele e a criatura que agora vos apresento. Como é típico dos psicopatas de alto funcionamento, José Ribamar cometeu o crime definitivo contra a própria identidade: assassinou o próprio nome e, sem o menor resquício de remorso, foi ao teatro.

José era uma morada sem janelas — se considerarmos o adágio de que os olhos são o portal da alma. Seu olhar era um tributo ao vácuo, uma ode ao gelo ártico. Emoções? Ele as soterrava com tal perícia que a superfície de seu rosto denotava apenas uma ausência absoluta. Era um ser mais excêntrico que os espectros de Laranja Mecânica. Poderia ter estancado sua sede ao aniquilar o próprio "eu", mas ele ambicionava o alheio. Queria estripar a identidade de outros, letra por letra.

Morava só, mas cultivava o hábito de receber visitas sob falsos pretextos. Sentia-se um maestro regendo a cacofonia da realidade. Escrevia para jornais, a princípio utilizando criptogramas alquímicos. Como suas mensagens eram indecifráveis, a curiosidade pública tornou-se o combustível de sua vaidade. Notas de rodapé transformaram-se em colunas; a audiência crescia, e José tornava-se o seu próprio espetáculo. Criou seu próprio código, mas, temendo a irrelevância do segredo absoluto, passou a semear pistas. Com luvas de pelica e precisão cirúrgica, recortou letras garrafais de periódicos antigos e formou a frase citando o seu ídolo oculto:

“Eu passo as noites pensando sobre a minha próxima vítima.”

A fama de nicho já não o saciava. José desejava o pânico em horário nobre, o preto e branco das manchetes sensacionalistas. Assistia aos noticiários como quem estuda um roteiro, assumindo a autoria de crimes que jamais cometera apenas pelo prazer do protagonismo. Manipulava afetos com maestria, forjando lágrimas e risos como máscaras de um carnaval dantesco. Tudo era um segredo trancado nos labirintos de sua mente.

— Caro narrador, intrometo-me aqui para corrigi-lo: não sou doente, sou o arquiteto da insanidade!

Ribamar era gélido, calculista, um predador que vestia a lã do cordeiro para melhor estraçalhar o rebanho. Sem dúvida, nosso personagem era um abismo patológico.

— Cuidado, narrador... o seu nome pode amanhecer com a boca cheia de formigas!

Ele adquiria o domínio sobre o mundo através do medo que semeava. Intimidava de forma tão visceral que suas vítimas passavam a preferir a paz do túmulo ao tormento de cruzar seu caminho. Ribamar premeditou o golpe mortal contra o próprio nome. Por que não fazê-lo sofrer? "A dor do outro é o meu êxtase", pensava. Após esquartejar simbolicamente sua identidade, deu fim ao corpo de uma forma ainda mais atroz. Triturou os ossos até que se tornassem pó; tal qual um Hannibal esteta, alimentou-se da essência do que um dia fora seu "eu". Ali, entre talheres de prata, degustava a mais macabra sopa de letrinhas.

“Espero um filme à minha altura. Quem me interpretará? Agora, eu detenho as rédeas de tudo.”

Enquanto transformava o próprio lar em um abatedouro silencioso, José deleitava-se com harmonias New Age. O som progressivo elevava sua consciência para planos onde a moral humana não passava de um ruído distante.

— Pare de narrar, imbecil! Crê mesmo que me conhece? Que pode me enclausurar em definições? Crápula! O seu nome já está entre meus dedos... e você não imagina a plasticidade do que farei com ele. Afinal, eu sou um exímio artista.

José levantou-se da poltrona, ajustando o nó da gravata de seda. O teatro o esperava. No palco, a tragédia era fingida; na plateia, ele era a única realidade absoluta. Enquanto os atores declamavam versos sobre destino e morte, José sorria no escuro, sentindo o peso do bisturi no bolso interno do paletó. Ao sair, deixou um envelope pardo na poltrona vazia. Dentro, um papel cheirando a formol e sândalo dizia:

"Ao narrador que ainda tateia no escuro: você se sente seguro atrás das palavras, mas as palavras são minhas ferramentas de corte favoritas. Olhe para a poltrona. Sinta o calor que deixei no assento. Eu ainda estou aqui. O próximo ato pertence ao silêncio. E o silêncio tem o gosto metálico do aço."

Saí do teatro apressado, sentindo o peso daquela presença invisível. Ao entrar no meu carro, o cheiro de sândalo invadiu minhas narinas. O gelo ártico que eu descrevera emanava do banco traseiro.

— Você escreve bem — disse uma voz mansa, vinda da escuridão. — Mas esqueceu que, para um artista do meu calibre, a obra mais perfeita é aquela que consome o seu criador.

Olhei pelo retrovisor. Não havia um rosto, apenas a silhueta de alguém usando uma máscara feita de recortes de jornais. As letras garrafais formavam palavras desconexas sobre a sua pele de papel.

— Você perguntou quem me interpretaria? — Ribamar sussurrou, aproximando-se do meu pescoço. — A resposta é simples: Você.

Antes que eu pudesse gritar, senti o toque frio do metal contra a minha garganta. Ele não queria apenas o meu sangue; ele queria o meu lugar. Na manhã seguinte, o jornal trazia uma notícia intrigante: um escritor fora encontrado morto diante de sua máquina de escrever. Sua identidade fora apagada e suas digitais cauterizadas. Sobre a mesa, uma última página datilografada dizia:

"O narrador está morto. Longa vida ao protagonista. Assinado: Ninguém."

José Ribamar não existia mais. Eu também não. No teatro da vida, o figurino mudara de mãos, e o homem sem nome agora caminhava livre, escolhendo quem seria o próximo a lhe emprestar a existência.

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